A ascensão do carro elétrico seria, como alardeiam alguns, a grande solução de mobilidade no futuro?

O governo francês anunciou nesta semana que vai acabar com a venda de carros movidos a diesel e gasolina até 2040, e desta forma neutralizar as emissões de carbono até 2050. A afirmação partiu do ministro do Meio Ambiente da França, Nicolas Hulot.

Na mesma semana a sueca Volvo anunciou também que vai parar de fabricar veículos movidos apenas a combustível fóssil, já a partir de 2019.

Por trás de decisões drásticas como estas – anunciadas por governos e empresas – está o crescente aperfeiçoamento da legislação ambiental de países preocupados em reduzir fortemente a emissão de poluentes. Os países europeus têm que produzir políticas que atendam à redução de emissões. O limite para monóxido de carbono, por exemplo, caiu 82% no continente europeu em vinte anos (de 1993 a 2014). Uma nova legislação, mais rigorosa, deve surgir até 2020.

A restrição à emissão de poluentes, provenientes em boa parte de motores movidos a combustão – diesel e gasolina –, tem levado a um avanço da indústria de carros elétricos. A redução nas emissões preocupa a indústria automotiva, já que inviabiliza a circulação de veículos nos moldes como são fabricados hoje.

O exemplo francês, antes de ser exceção, parece definir uma nova regra daqui por diante. A capital Paris passou a proibir a circulação de veículos produzidos até 1996 das 8h às 20h. Baniu ônibus e caminhões fabricados antes de 2001. Às montadoras resta definir como pretendem se adaptar a esses novos tempos. E elas já definiram, como demonstra o caso da Volvo.

O grande objetivo é neutralizar as emissões de carbono, exigência do Acordo de Paris. Isso faz com que o automóvel, antes um símbolo de status e mobilidade, torne-se mais e mais um grave problema de saúde pública, somado à outras deseconomia que provoca há décadas nas cidades, em particular nas metrópoles brasileiras.

Se no exterior o problema é essencialmente ambiental, no Brasil a questão é mais ampla: o automóvel tornou-se o grande vilão do transporte coletivo, sugando a maioria dos investimentos públicos para o setor. O transporte individual ocupa a maior parte das ruas e avenidas provocando congestionamentos, impedindo que os ônibus circulem em velocidades pertinentes, tornando o sistema de ônibus caro e ineficiente e gerando um forte impacto no custo final da tarifa.

Ou seja: mais que um problema de ar, no Brasil temos um problema de espaço… Todas as grandes cidades brasileiras têm um número de carros muito superior ao que cabe em suas ruas.

Cabe então perguntar: a ascensão do carro elétrico seria, como alardeiam alguns, a grande solução de mobilidade no futuro?

Parece claro que a questão ambiental não pode ser tratada de forma descolada do problema da mobilidade. Se nos países mais ricos há sistemas de transporte público eficientes, no Brasil este é um tema em que ainda estamos muito atrasados. Imaginar que trocar apenas o combustível tornará nossas cidades melhores é um engano perigoso. Carro, elétrico ou a gasolina, ocupa espaço de ruas e avenidas. A questão central, portanto, está em discutir o uso do veículo individual, buscando formas de se democratizar um espaço que é de todos, e que muitas vezes, ao ser mal distribuído e utilizado, destrói as cidades, tornando-as hostis e ineficientes. Poluídas e destruídas. Cheias de máquinas, mas um deserto de pessoas.

Fluidez de pessoas é o grande desafio das cidades brasileiras, e que não pode ser escamoteado. Estimular meios mais sustentáveis para melhorar isso é muito importante, mas apenas parte da solução.

Boas calçadas, redes que integrem os vários modais de locomoção, apoio ao uso de bicicletas, tudo se sustenta somente de tivermos prioridade para a circulação dos ônibus, e um desestímulo sério e crescente ao uso do automóvel particular. Sem paliativos, nem soluções apartadas.

Boas calçadas numa cidade que não estimula o caminhar não servem para nada, e com certeza durarão pouco. Calçadões que não entusiasmem as pessoas a sair para se divertir, caminhar e socializar, em pouco tempo quedarão destroçados. Caminhar pelo vale do Anhangabaú no centro de São Paulo, um imenso vale de pedras e ausente de verde, nos dá a dimensão do que é uma cidade destinada ao fracasso e à exclusão.

É sonho acreditar que tecnologias milagrosas resolverão o grave problema dos congestionamentos. Atitudes assim vêm definindo o comportamento de gestores públicos no país desde a ascensão do automóvel. O carro elétrico é bem vindo, mas para o Brasil precisamos mesmo é de ônibus elétricos, que não poluem, mas que precisam andar livres pelas ruas e avenidas.

Uma boa política de mobilidade urbana é isso: definir não só a prevalência de combustíveis não poluentes, como a prioridade de circulação dos ônibus no espaço das cidades e o auso da tecnologia para garantir melhores resultados.

Do Diário do Transporte
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transporte